Avatar

Um mundo novo repleto de coisas antigas

 O filme Avatar, dirigido e escrito por James Cameron (mesmo diretor de Titanic), ao mesmo tempo em que surpreende com uma iluminação ofuscante, cores vivas e efeitos extremamente reais, causa uma certa sensação de déjà vu.

Grande parte do sucesso do filme foi resultado da criação de um mundo físico, palpável, através de efeitos digitais surreais. As paisagens são de tirar o fôlego e os seres do planeta são meticulosamente criados. Tudo em Pandora parece bastante real e pertinente à verossimilhança do filme. Os cenários são maravilhosos sem tirar o foco do plano de ação do filme. Nas palavras de uma leiga em efeitos especiais: me encantei com o visual do filme. Apesar disso, a fotografia não foi muito genial.

A idéia principal do roteiro também chamou a minha atenção. A realização física e psicológica de um ser humano através da conexão com um ser pertencente a outro tipo de vivência – muito mais interessante para a personagem Jake Sullivan do que o seu mundo “real” – é, na verdade, um fato comum.  O mundo dos videogames proporciona essa sensação a milhares de pessoas que não se contentam com uma única realidade, divergente dos seus anseios. Até mesmo pequenos desejos de modificação pessoal, como ter um nariz menor ou ser mais rico, nos permitem criar uma realidade ideal na qual somos exatamente do jeito que queremos ser, ou seja, um avatar. Em meio a um enredo fictício, desenvolvido para todos os tipos de públicos, o longa-metragem abordou esse tema de forma bastante realista.

No entanto, quando tudo está certo, algo errado pode acontecer. Em meio a efeitos computadorizados perfeitos e a uma idéia inicial muito interessante, a história do filme aconteceu. Nada mais lugar comum. Um romance entre Pocahontas e John Smith, uma divisão clássica entre estereótipos do bem e do mal (e adivinha quem perde?). O velho contraste entre tecnologia e natureza e, para finalizar, um “felizes para sempre”, apenas conturbado pela morte ocasional de alguns personagens secundários do “bem”.

Além disso, o roteiro também falhou em outra questão. O conflito pessoal de Jake ao se ver pertencente a duas realidades diferentes, e praticamente intocáveis entre si, foi pouco desenvolvido. Pode-se perceber apenas a sua clara preferência pelo mundo dos Na’vi devido ao romance com Neytiri e ao retorno da sua capacidade de locomoção. Uma vida completamente nova é realmente excitante. Mas, ao mesmo tempo, acredito que mais aspectos da vida humana da personagem principal deveriam ser mostrados como, por exemplo, lembranças ou flashes de toda uma pré-existência que não poderia simplesmente ser relevada. Na verdade, ao longo de todo o filme, o lado humano foi pouco mostrado e, dentro de pedacinhos avulsos, ele foi apresentado como algo ruim, predatório e destruidor. Apenas algumas personagens mostraram-se “boas” e foram mortas no final. Já os Na’vi foram cultuados como seres perfeitos, sem rancores e raivas entre eles ou qualquer outro tipo de defeito. Olhando por esse ângulo, realmente, Jake tem razão. Por que não viver para sempre em Pandora, em meio a um povo tão moralmente perfeito, ao contrário dos pérfidos seres humanos? Nesse ponto, o roteiro apresentou um contexto contaminado de parcialidade, embasado em uma classificação preconceituosa e separatista de dois grupos.

Em suma, as imagens, a ação, os efeitos especiais e a idéia central do roteiro fazem de Avatar um maravilhoso videogame hollywoodiano. Enquanto filme, acredito que já havia visto isso antes em um desenho da Disney, embora John Smith não tenha se transformado em um índio no final.

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